Entre os dias 22 e 23 de abril, a cúpula do clima foi realizada por videoconferência devido à pandemia. A principal novidade é o retorno dos EUA como protagonista nos debates ambientais, após o governo de Trump se caracterizar por postura negacionista e promover em 2017 a retirada de seu país do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas (2015).

A principal meta anunciada por Biden, organizador do evento, foi a redução de 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030. A mudança de governo e de tom na política climática dos EUA explica por que o discurso de Jair Bolsonaro também mudou. Antes braço direito de Trump na América do Sul, o atual presidente brasileiro perdeu seu principal avalista (e negacionista) internacional, o que para muitos justificaria a busca de um alinhamento do Brasil ao novo governo americano.

Desde o primeiro ano de mandato, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão têm criado atritos com ambientalistas e institutos de pesquisas, como o INPE, contrariando dados científicos obtidos por meio de satélites, que demonstraram recordes de desmatamento e queimadas no Brasil. Em 2019, Jair Bolsonaro se referiu como “pirralha” à mais importante ativista ambientalista jovem, Greta Thunberg. O atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerado imperito em seu ofício, é acusado de fazer vistas grossas aos Interesses predatórios de grileiros, desmatadores e agricultores dotados de técnicas primitivas de manejo nas florestas e de violência contra índios.

Salles tem se envolvido em polêmicas em redes sociais, principalmente com personalidades. Chegou a postar nessa semana imagens de índios com celulares nas mãos, sugerindo que a incorporação desta tecnologia faria com que o índio deixasse de ser índio. Seria como dizer que o consumo de hambúrguer em um fast food fizesse com que um sujeito não fosse mais brasileiro. Salles demonstra absoluto desconhecimento antropológico.

A lição primária dessa disciplina, nos mostra Lévi-Strauss, é compreender que historicamente todas as culturas estão em transformação ou metamorfose, são plásticas e, com maior ou menor grau, realizam intercâmbios de toda espécie com outras sociedades. Mesmo uma eventual sociedade indígena ainda isolada do contato do mundo ocidental, não foi e nunca será exatamente idêntica ao seu passado ou futuro, ainda que muitas de suas tradições e costumes possam perdurar ou ser modificadas em menor ritmo.

Bolsonaro, o 19º a discursar na cúpula do clima desse ano, surpreendeu aos EUA de Biden e outros chefes de estado. Contradizendo dados sobre desmatamento e queimadas, e sob os olhos céticos dos movimentos ambientalistas e das mídias nacionais e estrangeiras, Bolsonaro realizou um gesto em direção à proteção do meio ambiente pela primeira desde que se tornou presidente, afirmando que o Brasil eliminará o desmatamento até 2030 com redução de 50% de gases poluentes – vale lembrar que, mesmo reeleito, Bolsonaro não estará na presidência até o fim do prazo. Além disso, afirmou o fortalecimento de órgãos ambientais e aumento do orçamento para fiscalizações, apesar de ser criticado por realizar cortes nessas áreas desde que assumiu o cargo. Solicitou auxílio econômico das potências mundiais para o seu (suposto) programa.

É provável que o discurso de Bolsonaro tenha retomado a velha política internacional “para inglês ver”, a fim de atenuar a imagem negativa causada pelo seu governo. Ao lado da ausência de uma política pandêmica minimamente eficaz, a imagem do país tem sido tomada e discutida como preocupante devido aos retrocessos das políticas ambientais. Investidores têm pensado duas, três vezes antes de associar suas marcas e produtos a um governo desorganizado que põe em risco o meio ambiente e os povos tradicionais da floresta.

Os campeões de emissões

Na cúpula do clima estiveram Líderes de países que respondem por 80% das emissões de carbono, de acordo Our World in Data

Fonte: Estadão.

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